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O Pazinhas

A lógica do ilógico. Uma abordagem respinguenta dos costumes enterrados na mona da malta.

A Rótula Feminina

06.10.19 | Miguel

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Quando se é um turista a visitar basílicas famosas e outras que tais, pressente-se à entrada um curioso pudor dérmico.

A pessoa humana, como identifica o bispo do Porto, é portadora de bastantes ossitos, uns com mais chicha à volta do que outros e, segundo as regras à porta das igrejas, uns mais libidinosos do que outros. Obviamente não defendo que devíamos entrar como viemos ao mundo pelos conventos adentro – apesar de haver algo de filosófico no acto –, só acho bizarra a escolha das partes que temos de cobrir.

Sendo eu pelo menos pessoa, tenho recentemente frequentado com as minhas ossadas algumas igrejas afamadas. E como não podia deixar de ser, em vez de admirar a sua magnanimidade, decidi tomar atenção aos letreiros que existem à entrada.

Estas tabuletas, ou “os cinco mandamentos turísticos”, apresentam uma panóplia de regras exigidas ao visitante: não entrar de mochila, perceptível; não tirar fotografias com flash não vá um anjo acordar e ficar rabugento; não falar alto, novamente o caso do anjo dorminhoco; não comer ou beber pois pode causar transtorno a santos esfomeados; e, exclusivamente para as mulheres, ir de joelhos tapados. É esta última regra que me faz comichão no hemisfério esquerdo do cérebro.

Consigo perceber a exclusividade da regra: o corpo masculino tem a função e o aspecto de um canivete-suíço, e como tal não somos do mais voluptuoso que por aí caminha. Mesmo os canivetes com six-pack incorporado não deixam de parecer uma mistura de “Bob, o construtor” com o Johnny Bravo. Servimos para aquilo que fomos criados: mudar lâmpadas e trocar pneus.

Aquilo que não compreendo é a especificidade em ser o joelho da mulher a articulação a tapar imperiosamente. Onde está a luxúria? Nunca vi um filme onde o protagonista canivete-suíço dissesse à sua amada “essa tua rótula carnuda e simétrica deixa-me louco, quero-te aqui e agora!”.

Nunca cheguei a acabar a Bíblia, mas duvido que haja um mandamento que diga “não mostrarás a patela em terreno sagrado, pois essa vil articulação permite à mulher adúltera deslocar-se para longe do marido e trair o sagrado matrimónio”. Já ninguém se desloca, o adultério agora é feito de Uber.